“PORQUE NÓS SOMOS O QUE A TERRA E O MAR FIZERAM DE NÓS”

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É longa a tradição piscatória na região do actual concelho de Matosinhos. Com uma vasta porção do seu território voltado para o mar, todos os povos que aqui passaram ou por aqui se instalaram se tornaram de alguma forma, dele dependentes. Mesmo antes da fundação de Portugal, os romanos que colonizaram a região, erigiram aquilo que poderá ter sido a primeira indústria transformadora de produtos alimentares derivados do mar – o Garum  -  uma espécie de pâté elaborado a partir de uma mistura de sangue, vísceras, porções cuidadosamente seleccionadas de atum e de cavala, peixes mais pequenos, crustáceos e moluscos triturados. Este composto era mantido em salmoura e exposto ao sol durante cerca de dois meses ou então aquecido artificialmente em tanques, normalmente de alvenaria, de que existem vários exemplares nalgumas praias locais. Extremamente apreciado em Roma era para lá exportado, em ânforas, como produto gourmet.

Com o fim do domínio romano e o avanço dos bárbaros, que ameaçavam as populações costeiras, estas recolheram-se um pouco mais para o interior continuando, contudo, a utilizar o peixe na sua alimentação, quer o que pescavam no rio Leça, quer algumas espécies maiores provenientes de algumas incursões furtivas ao longo da costa.

Após a reconquista contra os mouros, as gentes locais, aglomeradas sobretudo à volta do mosteiro de Bouças, (onde terá sido colocada à veneração dos fiéis a Imagem do Senhor Bom Jesus trazida milagrosamente pelo mar), começa a descer para o litoral e, sem abandonar a agricultura básica que praticava, vai voltar a dedicar-se à pesca artesanal. O novo lugar em que se fixaram designava-se por Matosinhos e em poucos séculos torna-se um importante centro de pesca e comércio de peixe, extracção de sal e construção naval. Das suas águas saíram muitos dos barcos que deram novos mundos ao mundo. O Futuro de Matosinhos estava traçado. O mar o fizera.

A partir de meados do séc. XIX, quando Matosinhos já era vila e cabeça de concelho, novas técnicas da pesca, de construção de barcos e de tratamento do peixe vieram transformar por completo os locais e a forma de trabalhar. Ao pescado são aplicados novos métodos de conservação, mais duradouros e mais rentáveis. As pequenas oficinas, onde se procedia à conservação por sal, vão dando lugar às grandes fábricas de onde, diariamente, saíam para exportação toneladas de conservas preparadas com azeite e molhos, que rapidamente tiveram reconhecimento mundial. Aumentou-se largamente a frota pesqueira. Criou-se uma lota. Fresco, o pescado de Matosinhos chegava a todas as partes do país.

Anos de maus resultados e más gerências, o aparecimento de concorrência estrangeira de fraca qualidade, mas mais barata, para além das medidas de cotas de pesca e de abate de barcos determinadas pela UE, vieram revolucionar novamente as indústrias tradicionais só que desta vez de forma negativa. A pouco e pouco assistiu-se ao atracar dos barcos  e à demolição das fábricas. E no local em que estas se situavam, surgiu uma zona que se denominou como Matosinhos-Sul e em que se levantaram enormes e imponentes condomínios de luxo.

Mas PORQUE NÓS SOMOS O QUE A TERRA E O MAR FIZERAM DE NÓS, uma nova revolução surgiu por  vontade dos matosinhenses. Fechados na sua terra, nada os impedia de se abrirem aos outros, aos de fora, que não têm um mar a molhar-lhe os pés nem acesso a peixe fresco nas refeições diárias. E os matosinhenses tiraram do baú das suas memórias as receitas tradicionais da confecção do peixe e frutos do mar a que juntaram depois algumas técnicas e processos mais modernos. E por toda a cidade surgiram tascas, bares, restaurantes e, à falta de espaço, até fogareiros nas ruas. E descobriram uma nova forma de mostrarem de que são feitos e o que fazem. Em poucos anos Matosinhos tornou-se um dos locais mais conhecidos no país para quem gosta de saborear peixe de qualidade e sabor refinado.

Foi neste contexto que nasceu a Confraria Gastronómica do Mar.

O que pretende esta Confraria? MOSTRAR O QUE OS MATOSINHENSES FIZERAM DA SUA TERRA E COM O SEU MAR.

O que a move? Fundamentalmente PRESERVAR, PROMOVER e DIVULGAR A GASTRONOMIA DO MAR DE MATOSINHOS .

 

Georges! anda ver meu país de Marinheiros,

O meu país das naus, de esquadras e de frotas!

  António Nobre

 

Por Isabel Lago, Historiadora.

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